Quando o crime produz prazer: por que transgredir pode ser tão atraente?

Quando o crime produz prazer: por que transgredir pode ser tão atraente?

Há pessoas que cometem crimes por necessidade. Outras, por oportunidade. Algumas, por influência do meio. Mas existe uma pergunta mais incômoda: o que leva alguém a sentir prazer justamente quando ultrapassa um limite que sabe que não deveria ultrapassar?

A resposta não é simples. E talvez seja justamente por isso que o crime não possa ser explicado apenas pela razão, pela pobreza, pela impunidade ou pelo cálculo racional entre risco e benefício.

Para a psicanálise, o ser humano não é inteiramente governado pela consciência. Existe uma dimensão inconsciente que participa de nossas escolhas, desejos, fantasias e conflitos. Freud nos ensinou que, por trás daquilo que dizemos querer, podem existir desejos que não reconhecemos e que nem sempre são moralmente aceitáveis.

É nesse ponto que a transgressão se torna particularmente interessante.

Toda sociedade estabelece limites. Não matar, não roubar, não violentar, não agredir. Esses limites são fundamentais para a convivência. Mas o limite também produz uma experiência psíquica: ele separa aquilo que é permitido daquilo que é proibido.

E, para determinados sujeitos, o proibido pode adquirir um valor de atração justamente por ser proibido.

Não significa que toda pessoa que sente vontade de transgredir cometerá um crime. Pensamentos, fantasias e desejos não são equivalentes a atos. A vida civilizada depende, justamente, da capacidade de transformar impulsos em algo que possa ser elaborado, contido ou simbolizado.

O problema surge quando a passagem ao ato se torna a forma encontrada pelo sujeito para lidar com aquilo que não consegue elaborar.

É possível que, em determinados casos, o crime não seja percebido apenas como meio para alcançar alguma vantagem. Ele pode representar poder, domínio, vingança, reconhecimento ou até uma sensação momentânea de existência.

O sujeito transgride e, por alguns instantes, sente que possui aquilo que buscava: controle sobre o outro, sobre a situação ou sobre a própria angústia.

É aí que aparece uma distinção fundamental: compreender não é justificar.

Investigar os elementos psíquicos envolvidos em um crime não significa retirar do indivíduo sua responsabilidade. Pelo contrário. Compreender o caminho que conduz ao ato pode ser uma maneira mais sofisticada de pensar a própria responsabilidade.

Talvez uma das maiores ilusões seja imaginar que basta aumentar a punição para eliminar o desejo de transgressão. A lei pode estabelecer limites externos, mas não consegue, sozinha, modificar o mundo interno de um sujeito.

E isso nos coloca diante de uma questão ainda mais desconfortável: o que acontece quando a pessoa não sente culpa pelo que fez?

A culpa pode funcionar como um freio. Mas sua ausência não significa necessariamente ausência de conflito. Às vezes, o que aparece no lugar dela é o desafio, a repetição ou a necessidade de novamente ultrapassar o limite.

Por isso, compreender o crime exige olhar para além do momento em que ele acontece.

Existe o ato, mas existe também o sujeito que o pratica.

Existe a vítima, mas existe também a história que precede aquela violência.

Existe a punição, mas existe ainda algo que a punição, sozinha, talvez nunca consiga alcançar: o desejo inconsciente que encontrou no crime uma forma de expressão.

Compreender esse sujeito não significa absolvê-lo.

Significa reconhecer que, por trás de todo ato criminoso, existe uma complexidade humana que precisa ser investigada justamente para que possamos compreender melhor por que alguns limites são respeitados, enquanto outros despertam o desejo de serem ultrapassados.