Dia do Acolhimento Familiar: Gabriela Prado, diretora-geral da LAV, explica a iniciativa e incentiva baririenses a se tornarem famílias acolhedoras

Dia do Acolhimento Familiar: Gabriela Prado, diretora-geral da LAV, explica a iniciativa e incentiva baririenses a se tornarem famílias acolhedoras
PERFIL
Nome completo: Gabriela Prado Rodrigues
Idade: 39 anos
Naturalidade: São Paulo-SP
Formação: Terapeuta Ocupacional
Função: Diretora Geral da LAV (Lar Amor e Vida). Atuamos nos municípios de Bariri, Itapuí, Bocaina e Macatuba com o serviço de acolhimento em Família Acolhedora.

 

Noticiantes: No dia 31 de maio, comemorou-se o Dia Mundial do Acolhimento Familiar. No que consiste esta data?

Gabriela Prado: “Lar temporário, memórias eternas.” O Dia Mundial do Acolhimento Familiar, celebrado em 31 de maio, tem como objetivo sensibilizar a sociedade sobre a importância de acolher crianças e adolescentes que precisaram ser afastados temporariamente de suas famílias por medida protetiva. A data reforça a necessidade de ampliar famílias acolhedoras e fortalecer o direito de toda criança crescer em ambiente familiar e comunitário, priorizando o acolhimento em família em detrimento da institucionalização. Porque nenhuma instituição, por melhor que seja, substitui o calor de um lar. E é justamente nesse chamado à sociedade que nasce o nome do serviço executado pela LAV: A-COR-DAR.
A-COR-DAR é despertar para uma pauta urgente. É acordar para a responsabilidade coletiva de proteger nossas crianças. Mas também é um acordo: um compromisso social de cuidado, proteção e humanidade. E é ainda “dar cor”. Colorir histórias marcadas pela dor com afeto, pertencimento, memória e cuidado. O acolhimento tem começo, meio e fim. Tem despedidas. Tem travessias. Tem recomeços. Porque ser Família Acolhedora é ser ponte, não destino. Pontes existem para possibilitar travessias seguras.

Noticiantes: O que é o serviço de acolhimento em família acolhedora?

Gabriela Prado: O Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora oferece proteção temporária para crianças e adolescentes que precisaram ser afastados de suas famílias por medida protetiva. Em vez de crescerem em uma instituição, elas passam a viver temporariamente em uma família preparada, acompanhada pela equipe técnica e pela rede de proteção. O acolhimento familiar é hoje considerado a modalidade preferencial de acolhimento porque toda criança precisa de convivência familiar, cuidado individualizado, afeto, rotina e referências afetivas. Nenhuma instituição, por melhor que seja, substitui a experiência de viver em família.

Noticiantes: Qual a diferença entre acolhimento familiar e adoção?

Gabriela Prado: A família acolhedora não substitui a família de origem e não entra no serviço pensando em adoção. O acolhimento é temporário e tem como objetivo proteger a criança durante um momento difícil da sua vida, até que ela possa retornar para sua família de origem ou seguir outro encaminhamento definido pela Justiça. A família acolhedora oferece cuidado, segurança, rotina, amor e proteção quando a criança mais precisa. É ajudar uma criança que você não conhece por um período, construir vínculo, afeto e história. Ser Família Acolhedora é ser ponte e não destino. Ponte para o retorno à família de origem ou para uma nova história. E sabemos que pontes são travessias, não destinos.

Noticiantes: Por que o acolhimento familiar é considerado melhor para a criança?

Gabriela Prado: Porque crianças precisam de vínculos, pertencimento e cuidado individualizado. Precisam de alguém perguntando como foi seu dia, ajudando na lição, fazendo comida, acolhendo o choro, comemorando conquistas e oferecendo colo nos momentos difíceis. Nada é mais importante para uma criança do que sentir que existe alguém verdadeiramente preocupado com ela. Uma família consegue oferecer experiências afetivas e referências emocionais fundamentais para o desenvolvimento saudável. A criança precisa de rotina, olhar, pertencimento e cuidado individualizado.
No acolhimento institucional, por melhor que seja o serviço, existem muitas rupturas: funcionários que mudam; colegas que chegam e vão embora; mudanças constantes na rotina. E muitas vezes, quando apenas outra criança recebe visita, isso reforça sentimentos de rejeição e abandono. Sua família pode mudar essa história!

Noticiantes: Muitas pessoas dizem ter medo de “se apegar”. Como vocês veem isso?

Gabriela Prado: O apego não é um problema. O apego é justamente o que ajuda a criança a se reconstruir emocionalmente. A criança já sofreu rupturas, violências e perdas. O que ela mais precisa é experimentar relações saudáveis e seguras. “O apego não destrói. O apego reconstrói.” E quando chega o momento da despedida, a família não “perde” aquela criança. Pelo contrário: ela cumpriu uma missão extremamente importante. Você não vai “suportar” ter que devolver, pelo motivo de que essa criança nunca foi sua. Mas você e sua família podem ser exatamente a proteção que ela precisava naquele momento da vida. O luto faz parte da vida. Ele acontece quando terminamos um relacionamento, mudamos de cidade, encerramos ciclos ou nos despedimos de pessoas importantes. Mas a despedida não apaga o que foi vivido. O amor vivido permanece na história daquela criança para sempre. E permanece também na memória da família acolhedora, que igualmente se transforma através do cuidado. Acolher também transforma quem acolhe.

Noticiantes: Como funciona o desligamento da criança da família acolhedora?

Gabriela Prado: O desligamento é acompanhado pela equipe técnica e acontece de forma gradual, cuidadosa e respeitosa. Todos sofrem com as rupturas. Mas quando esse processo é bem trabalhado, a sensação deixa de ser de perda e passa a ser de dever cumprido. O vínculo construído não desaparece. Ele se transforma em memória afetiva, segurança emocional e referências positivas. Por isso dizemos: “Lar temporário, memórias eternas.”

Noticiantes: Qual o papel da equipe técnica nesse processo?

Gabriela Prado:  A família acolhedora nunca está sozinha. Existe acompanhamento técnico contínuo, orientação, escuta, supervisão e apoio da rede de proteção. A equipe acompanha: a criança; a família acolhedora; a família de origem;e todo o processo judicial e emocional envolvido.
O serviço trabalha em conjunto com: Judiciário; Ministério Público; Conselho Tutelar; Assistência Social; Saúde; Educação; e toda a rede de proteção.

Noticiantes: O acolhimento familiar está previsto em lei?

Gabriela Prado: Sim. O acolhimento familiar está previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente e vem sendo fortalecido nacionalmente pelo Conselho Nacional de Justiça e pelo Ministério Público. A legislação brasileira reconhece que a convivência familiar e comunitária é um direito fundamental da criança e do adolescente. A Constituição Federal também estabelece que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar proteção integral às crianças e adolescentes. O acolhimento familiar é hoje uma política pública prioritária e uma importante estratégia de proteção integral. As famílias acolhedoras atuam de forma voluntária e recebem um auxílio financeiro equivalente a um salário mínimo vigente destinado exclusivamente às despesas da criança acolhida.

Noticiantes: Ser família acolhedora é “pegar” a criança aos finais de semana?

Gabriela Prado: Não. Antigamente era comum algumas pessoas levarem crianças acolhidas institucionalmente para passeios aos finais de semana, pizzarias, parques ou momentos de convivência com suas famílias. Mas esse não é o objetivo do Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora. A criança acolhida em Família Acolhedora não permanece no abrigo ou SAICA enquanto aguarda visitas esporádicas. Ela passa a viver integralmente com a Família Acolhedora, em uma rotina real de convivência familiar. A Família Acolhedora recebe um termo de guarda provisória e passa a compartilhar, junto com o serviço e com a rede de proteção, a responsabilidade pelo cuidado daquela criança durante o período do acolhimento.
A proposta é oferecer: rotina; pertencimento; cuidado individualizado; convivência familiar; referências afetivas; estabilidade emocional. Por isso, o acolhimento familiar é diferente do apadrinhamento afetivo e também diferente da adoção. No apadrinhamento afetivo, normalmente existem visitas, passeios e convivência parcial. Na adoção, há intenção de constituição definitiva de família. Já no acolhimento familiar, o objetivo é proteger temporariamente a criança em ambiente familiar seguro até que seja possível o retorno à família de origem ou outro encaminhamento definido judicialmente.
O acolhimento não é visita. Não é caridade. Não é “pegar uma criança por um tempo”. É compromisso, cuidado e presença. É oferecer a uma criança a experiência de viver em família justamente no momento em que ela mais precisa de proteção. Porque nenhuma instituição substitui o calor de um lar.

Noticiantes: Qual a importância social desse serviço?

Gabriela Prado: O acolhimento familiar transforma vidas. Transforma a vida da criança, da família acolhedora, da comunidade e da própria cidade. Quando uma sociedade decide cuidar das suas crianças de forma mais humana, ela está construindo futuro, pertencimento e proteção. Como disse Diacomo Jamil: “Esse serviço é a palavra de Deus fora da Bíblia.” Porque acolher é um ato profundamente humano. Ninguém cresce sozinho. Toda criança precisa de cuidado, presença, referências e oportunidades de viver relações saudáveis. Até mesmo uma planta, se ninguém olhar, regar e cuidar, não sobrevive. Imagine então uma criança. “O mundo muda quando uma criança encontra proteção.”

Noticiantes: O que você diria para quem está pensando em se tornar família acolhedora?

Gabriela Prado:  Não tenha medo de transformar um momento difícil em algo menos doloroso para uma criança. Você não precisa ser perfeito. Precisa apenas estar disponível para cuidar. Abra sua casa. Abra seu coração. Abra espaço para o afeto. Talvez você não mude o mundo inteiro. Mas pode mudar completamente o mundo de uma criança.

Noticiantes: O Noticiantes agradece sua participação e deixa o espaço aberto para suas considerações finais.

Gabriela Prado:  Toda criança merece crescer em família. O acolhimento familiar é cuidado, proteção e humanidade. Quando uma criança encontra um lar seguro em meio à dor, ela aprende que ainda pode confiar, amar e sonhar. E isso pode transformar toda a sua história. Seja parte dessa transformação social. Seja uma Família Acolhedora! Para mais informações, procure a LAV – Serviço A-COR-DAR, através do telefone (14)  99124-9543.