Torna-te quem tu és: quando deixamos de viver para os outros

Torna-te quem tu és: quando deixamos de viver para os outros

“Torna-te quem tu és.” A frase de Friedrich Nietzsche parece simples, mas esconde uma pergunta difícil: se eu já sou quem sou, por que precisaria me tornar?
Talvez porque aquilo que somos nem sempre seja aquilo que escolhemos ser. Desde cedo, aprendemos a ocupar lugares. Somos ensinados a ser bons filhos, bons alunos, bons profissionais, bons companheiros. Aprendemos o que é certo e errado, o que é aceitável e o que deve ser evitado. Aos poucos, incorporamos expectativas que vêm da família, da sociedade e das pessoas que amamos.
O problema começa quando confundimos essas expectativas com a nossa própria identidade. Passamos, então, a viver tentando corresponder. Dizemos “sim” quando queríamos dizer “não”. Escolhemos caminhos para agradar. Permanecemos em relacionamentos por medo de decepcionar. Buscamos reconhecimento porque precisamos sentir que somos aquilo que os outros esperam de nós.
E, muitas vezes, nem percebemos. É nesse ponto que a frase de Nietzsche ganha força. “Tornar-se quem tu és” não significa simplesmente “seja você mesmo”. Significa enfrentar o trabalho difícil de descobrir o que existe por trás das máscaras que fomos construindo ao longo da vida.
E isso pode ser doloroso. Porque, quando começamos a questionar aquilo que sempre acreditamos ser, podemos descobrir que algumas escolhas não nasceram exatamente de nós. Foram respostas a expectativas, medos, cobranças ou necessidades de aprovação.
A psicanálise pode contribuir para essa reflexão ao colocar o sujeito diante de uma pergunta fundamental: o que você realmente deseja?
Não é uma pergunta simples. Desejar não significa simplesmente querer alguma coisa. Muitas vezes, o sujeito não consegue reconhecer o próprio desejo porque está ocupado demais tentando corresponder ao desejo do outro.
É por isso que o autoconhecimento não deve ser confundido com encontrar uma definição confortável para si mesmo. Conhecer-se também significa suportar algumas descobertas desconfortáveis.
Talvez exista em nós uma distância entre aquilo que mostramos e aquilo que sentimos. Entre a pessoa que acreditamos ser e aquela que aparece quando nossas certezas são colocadas em crise.
“Tornar-se quem tu és” pode significar justamente atravessar essa distância.
Não se trata de justificar nossos erros, muito menos de acreditar que somos prisioneiros de uma personalidade imutável. Pelo contrário. A ideia de transformação pressupõe responsabilidade.
Na criminologia, essa reflexão também possui importância. Compreender o sujeito por trás de um ato não significa absolver ou justificar o crime. Significa reconhecer que nenhum comportamento humano existe completamente separado de uma história, de relações, de conflitos e de escolhas.
Compreender é diferente de justificar. Talvez essa seja uma das tarefas mais difíceis da vida: olhar para aquilo que nos constituiu sem permitir que o passado determine completamente aquilo que seremos.
Nietzsche nos provoca a não permanecer eternamente prisioneiros das versões de nós mesmos que foram construídas ao longo do caminho.
Porque, no fim, talvez a pergunta mais importante não seja simplesmente “quem eu sou?” Mas: “Quem estou me tornando?” E essa resposta não está pronta. Ela é construída todos os dias.