Seletividade alimentar: nutricionista infantil explica a importância de acompanhamento nutricional especializado para crianças autistas

Seletividade alimentar: nutricionista infantil explica a importância de acompanhamento nutricional especializado para crianças autistas

Crianças portadoras de Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresentam desafios na comunicação e interação social e têm padrões de comportamento restritos e repetitivos, com interesses específicos e sensibilidade sensorial, podendo também ter dificuldade na alimentação. Com isso, o atendimento nutricional de autistas é fundamental para o desenvolvimento e evolução alimentar da criança.

A nutricionista infantil Sabrina Oliveira, 23 anos, natural de Bariri, é especialista em atendimento para crianças autistas. Segundo ela, o acompanhamento nutricional de autistas é diferenciado e precisa ser totalmente personalizado.

“Cada criança é única e carrega suas próprias particularidades sensoriais, emocionais e alimentares. Por isso, na minha prática, busco entender a fundo a rotina da criança, suas preferências, rejeições alimentares, o ambiente familiar e escolar, além das comorbidades que muitas vezes estão associadas ao autismo, como constipação, uso de medicações ou questões de sono. É um atendimento que exige escuta, paciência e uma abordagem lúdica. Com autistas, muitas vezes a comida vai além da nutrição: envolve textura, cor, cheiro, ambiente e até mesmo a disposição no prato. Por isso, sim, é diferente dos demais atendimentos e precisa ser conduzido com muito respeito ao tempo da criança”, explica Sabrina.

Autistas possuem uma condição denominada seletividade alimentar. A profissional enfatiza que a seletividade acontece quando a criança restringe muito os tipos de alimentos que aceita comer, às vezes comendo apenas uma pequena variedade de itens por dia ou recusando certos grupos alimentares por causa da cor, textura ou cheiro.

“No autismo, essa seletividade é bastante comum e está relacionada a questões sensoriais. A criança pode se incomodar com o som de um alimento crocante, com o cheiro do tempero ou com a sensação do alimento na boca. E isso não é manha, é uma resposta real do sistema sensorial dela. Mas vale ressaltar que a seletividade é comum em crianças atípicas e típicas também”.

A nutricionista ressalta que, além de uma nutrição equilibrada, como qualquer criança, o autista pode precisar de suporte para lidar com dificuldades digestivas, deficiências nutricionais, sensibilidade sensorial e rotinas alimentares rígidas.

“Muitas crianças no espectro têm problemas gastrointestinais, como constipação crônica, distensão abdominal e até intolerâncias alimentares. Por isso, o acompanhamento com uma nutricionista especializada é essencial para garantir que, mesmo com uma dieta limitada, ela esteja recebendo todos os nutrientes que precisa para crescer e se desenvolver bem”.

Neste processo alimentar da criança autista, a família é uma peça fundamental e necessária. Para Sabrina, a mudança deve começa em casa, com acolhimento, paciência e sem imposição.

“O objetivo não é forçar a criança a comer, mas sim construir uma nova relação com os alimentos de forma leve, respeitosa e progressiva. Minha orientação é sempre para envolver a criança em momentos com a comida: ir à feira, ajudar a preparar, tocar nos alimentos… mesmo que ela não coma de imediato. Essa aproximação já é parte do processo de reeducação alimentar. A família também precisa estar disposta a mudar hábitos, oferecer novas possibilidades de forma repetida e, principalmente, manter a calma diante da recusa”, diz a nutricionista.

Como cada caso é único, não existe uma dieta padrão que sirva para todas as crianças autistas, porque cada uma tem uma realidade diferente. A alimentação deve ser sempre individualizada, mas a orientação da nutricionista aos pais é investir em alimentos naturais, frescos e nutritivos como frutas, legumes, verduras, ovos, grãos e boas fontes de gordura. Esses produtos ajudam no bom funcionamento do intestino, na regulação do sono e no comportamento da criança.

Por outro lado, existem alimentos que podem piorar sintomas comuns no autismo, como irritabilidade, agitação, distúrbios do sono e questões gastrointestinais. Entre eles estão os ultraprocessados, com excesso de açúcar, corantes artificiais, conservantes e aditivos químicos.

“Além disso, algumas crianças autistas podem apresentar alergias ou sensibilidades ao glúten (presente no trigo) e à caseína (presente no leite), o que também pode afetar o comportamento e a saúde intestinal. Nesses casos, é essencial investigar através do acompanhamento individualizado antes de fazer qualquer restrição alimentar”.

Nesses casos, o profissional de nutrição pode indicar a chamada dieta SGSC, sigla para “sem glúten e sem caseína”, ou seja, sem trigo e derivados do leite.

“Essa dieta é bastante conhecida no meio do autismo porque muitas famílias relatam melhora em sintomas gastrointestinais e até comportamentais após a retirada desses alimentos. Porém, é importante reforçar que essa dieta não deve ser feita por conta própria, sem avaliação nutricional. Retirar grupos alimentares sem reposição adequada pode causar deficiências nutricionais. Quando necessário, faço essa orientação de forma segura e individualizada, com acompanhamento próximo e exclusivo”, finaliza Sabrina.